Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

Saída do nevoeiro: "Plagiando, passo a citar"

É sempre por volta de Janeiro que dou corpo a uma saga chamada "correcção de recensões críticas". A entrega é feita antes das férias de Natal e aqueles dias entre o natal e o ano novo são passados a arrepelar os cabelos e a deixar crescer a vontade de estrangular (simbolicamente, claro) tal torrente de apropriações indevidas de palavras e ideias de outros que não os autores identificados nas folhas de rosto dos trabalhos que me chegam às mãos.

A seguir segue-se o confronto, a negação, o estrebuchar típico dos culpados que negam as evidências. Às vezes julgar-me-ia num qualquer episódio de CSI, comigo no papel de Horatio. Quase sempre o desfecho da acção, o climax máximo acontece quando eles assumem que, sim senhora, plagiaram porque estava muito bem escrito e eles não tinham palavras próprias de melhor qualidade para dizer o mesmo. Raramente o resultado é diferente da exclusão da avaliação contínua e do encaminhamento direitinho para o "cadafalso" chamado Exame Final. Não raro faltam ao exame, órfãos que estão das inspirações alheias. Ora, numa destas sessões de correcção, apareceu-me esta frase magnífica que dá título a esta nota e que denota bem o completo alheamento dos estudantes relativamente ao que está em causa.

Costumo dizer-lhes que prefiro um trabalho trapalhão e atrapalhado mas feito por eles (porque só assim a avaliação poderá cumprir o seu papel formativo) a um trabalho perfeito mas que foi feito por alguém desconhecido, que não foi meu aluno e que não faz sentido ser eu a avaliar.

Mas, hoje de manhã, na leitura habitual das sextas-feiras do suplemento ípsilon, do jornal Público, que leio eu? Que Patrick Poivre d'Arvor, jornalista conhecido lá pela Cidade das Luzes, e não só, autor de um livro (a editar brevemente) sobre Ernest Hemingway, tinha plagiado cerca de 100 páginas de um outro livro sobre o autor d'O velho e o mar (um dos meus preferidos).

Bom, a gente até sabe que a história da literatura, e não só, conta com algumas estórias destas, mas não cai bem, sei lá! E não venham com o argumento de que foram visitados em sonhos por vozes alheias que lhes sopraram o que escrever.

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